Autor: Gilson Guilherme Miguel Ângelo
Publicado pela Editora Gaesema

A situação política e geopolítica mundial, especialmente no contexto africano, exige uma reflexão profunda e urgente sobre o futuro de Angola e seu papel dentro dos complexos cenários internacionais. A recente saída de Angola do acordo de paz relacionado ao conflito no Congo, que envolve o governo de Félix Tshisekedi e o grupo M23, é um marco significativo que merece uma análise cuidadosa. Este artigo, escrito por Gilson Guilherme Miguel Ângelo, propõe-se a alertar o povo angolano para os perigos iminentes que resultam das acções de grandes potências e suas influências sobre os destinos de nações africanas, como a nossa.
O mundo de hoje, de forma alarmante, reflecte o mesmo cenário de um passado não tão distante, quando as grandes potências dividiam o planeta em “salas fechadas” e manipulavam os destinos dos países sem se importar com o impacto sobre suas populações. A sequência de eventos da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, com a divisão da Alemanha em Oriental e Ocidental, mostra claramente o quanto a geopolítica pode ser moldada de acordo com os interesses estratégicos das potências em ascensão. Nesse mesmo período, o processo de “libertação” da África não foi nada mais do que uma maneira de as potências não coloniais passarem a dominar o continente de forma mais suptil, por meio da exploração de suas riquezas naturais e da introdução de suas indústrias. Angola, como um exemplo claro, passou a depender cada vez mais das potências externas, que trouxeram consigo a tecnologia industrial e, consequentemente, uma nova forma de exploração, se isolando dos portugueses, mais aceitando empresas americanas e Francesas como a Chevron, Total, a Enni e muito outras de operarem nos sectores energéticos, bem como a Rússia tomou conta dos Diamantes péla suposta Estatal Russa Catoca.
Hoje, o cenário é outro. Angola, como muitas outras nações africanas, possui sua independência formal, mas o controle global continua a ser determinado por nações que possuem poder bélico e capacidade de produzir em larga escala. Neste contexto, a Europa, os Estados Unidos e a Rússia estão longe de serem meros observadores; eles são os grandes players, capazes de decidir sobre o destino de países, muitas vezes sem qualquer consideração pélas necessidades de suas populações.
A invasão russa na Ucrânia e os conflitos contínuos no Oriente Médio são exemplos de como os interesses de grandes potências continuam a ditar as regras da geopolítica. Além disso, países aparentemente pequenos, mas dotados de poder militar significativo, como Israel, continuam a influenciar o curso das guerras e a decidir quem tem o direito de expandir suas fronteiras. O controle das armas bélicas tornou-se a chave para a definição dos vencedores no palco global. Para Angola, assumir uma posição de liderança na busca péla paz, como mediador do conflito envolvendo o M23 e o governo congolês, é uma decisão estratégica importante, mas não isenta de riscos. O M23, em sua actual configuração, parece ser mais uma marionete de interesses estrangeiros do que um movimento genuíno péla autonomia do Congo.
Porém, a decisão de Angola de se distanciar desse acordo de paz pode ser vista como uma jogada inteligente. Angola, que desfruta de uma paz estável desde 2002, não pode se permitir ser arrastada para um conflito armado, especialmente com um grupo como o M23, que se beneficia de apoio externo, especialmente em termos de tecnologia bélica moderna. As consequências de um envolvimento militar com este grupo, com o respaldo de potências europeias, podem ser desastrosas para a estabilidade e a soberania de Angola.
É importante lembrar que Angola tem uma longa e profunda relação histórica com o povo congolês. As culturas angolana e congolesa estão intimamente entrelaçadas, o que torna um envolvimento em um conflito como o do M23 ainda mais arriscado, pois pode desencadear uma série de tensões internas e externas que ameaçam a paz conquistada com tanto esforço.
Além disso, Angola deve fortalecer sua segurança nas fronteiras com a República Democrática do Congo (RDC). A saída de José Eduardo dos Santos e a ascensão de João Lourenço à presidência trouxeram uma mudança significativa na orientação política do país, afastando-o do sistema comunista, socialista e aproximando-o das economias ocidentais. A recente visita do presidente Joe Biden à Angola, e a transformação visível do país, são indicadores de que Angola busca ser um aliado confiável no Ocidente. No entanto, a ascensão de Donald Trump e sua postura alinhada com a Rússia trouxeram uma nova dinâmica, o que pode afectar directamente o equilíbrio de poder na região, incluindo a RDC.
O mundo está, mais uma vez, à beira de um novo confronto entre grandes potências. Como já vimos ao longo da história, as transições de poder, como as ocorridas em grandes impérios como o Egipto Antigo, a Babilónia, a Roma Imperial ou a Alemanha de Hitler, muitas vezes causam grandes cataclismos geopolíticos que afectam directamente os países mais vulneráveis. A queda de regimes e mudanças de liderança podem ser a chave para o surgimento de novos conflitos territoriais e disputas por recursos naturais, e Angola não está imune a esse tipo de pressão.
No entanto, a lição histórica que devemos tirar dessa análise é clara: a paz nacional, que foi arduamente conquistada após a guerra armada e civil angolana, deve ser preservada a todo custo. A unidade do povo angolano é essencial para garantir que o país não seja arrastado para conflitos que não lhe dizem respeito e que podem comprometer sua independência. O Congo pode ser dividido, e os povos podem ser expulsos de suas terras, mas isso não deve acontecer com Angola.
É hora de o povo angolano tomar consciência de sua vulnerabilidade e reforçar a sua união. A guerra, como sempre, será determinada não pélo interesse do povo, mas pélos interesses de quem controla o poder militar e económico. A verdadeira liberdade para um país vem da sua capacidade de se manter unido, forte e soberano, e Angola deve garantir que este princípio seja mantido, sem se deixar iludir por jogos geopolíticos que ameaçam sua independência e estabilidade.
Angola, como a RDC, tem riquezas naturais que podem ser exploradas para garantir sua prosperidade. No entanto, a verdadeira riqueza de um país não está apenas nas suas terras, mas na sua capacidade de se unir como uma nação. A paz interna deve ser a prioridade para garantir um futuro próspero e livre das garras de potências externas que buscam controlar o destino dos outros.
Editado péla Editora Gaesema
Assinatura de Gilson Guilherme Miguel Ângelo
Artigo Publicado Péla Revista Gaesema
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