Autor: Gilson Guilherme Miguel Ângelo
Revista GAESEMA | CAP 10 Da Produção | Ano 2025 | Número Especial 10

Resumo:
Este artigo propõe uma reconceituação profunda da economia e do desenvolvimento a partir da identificação de sete produtos essenciais da vida: alimento, habitação, vestuário, saúde, conhecimento, espiritualidade e relacionamentos. Inspirado na cosmovisão filosófica da GAESEMA (Guia de Acção das Estruturas Sociais do Estado em Modelos Aperfeiçoados), o texto articula saberes ancestrais e contemporâneos para defender um novo paradigma civilizatório centrado no cuidado, na interdependência e na dignidade. Mais do que categorias funcionais, esses produtos configuram os pilares ontológicos da existência humana e devem orientar práticas políticas, sociais e produtivas comprometidas com o bem comum e a regeneração da vida.
1. Introdução: Um Novo Horizonte de Desenvolvimento
O atual modelo de desenvolvimento, guiado por métricas quantitativas como o Produto Interno Bruto (PIB) e pela lógica do acúmulo, revela-se insuficiente frente às crises sociais, ambientais e subjetivas que marcam o século XXI. Neste contexto, a proposta da GAESEMA convida a uma revisão paradigmática: e se produzíssemos com base no que é essencial à vida?
Sete produtos são aqui identificados como fundamentos não negociáveis da existência: alimento, habitação, vestuário, saúde, conhecimento, espiritualidade e relacionamentos. Esses elementos não são apenas necessidades humanas básicas — são expressões de um modo de ser integral, que conecta corpo, alma, território e comunidade.
2. Alimento: A Base da Sustentabilidade e da Vida Comunitária
O alimento é o primeiro produto essencial e fundamento da vida. Não se trata apenas de subsistência, mas de uma relação profunda com a terra, a cultura e as redes de convivência. Alimentar-se é um ato que envolve ecologia, identidade e justiça social.
Nas matrizes africana, ocidental e asiática, o alimento é compreendido não só como energia para o corpo, mas como elemento de conexão espiritual e comunitária. A agricultura tradicional africana, que privilegia a diversidade e o cuidado com o solo; a agroecologia ocidental, que propõe a sustentabilidade e a regeneração; e os sistemas agrícolas asiáticos, que valorizam o equilíbrio entre homem, água e natureza, exemplificam práticas ancestrais e contemporâneas que respeitam a vida em sua complexidade.
Garantir acesso a alimento saudável, produzido com respeito à biodiversidade e aos saberes locais, é promover a dignidade e a resiliência das comunidades.
3. Habitação: Espaço de Refúgio e Coexistência
A habitação, como segundo produto essencial, é mais que abrigo físico — é espaço de pertencimento, proteção e convivência. Em diferentes culturas, a casa representa uma extensão do corpo e do espírito, integrando o indivíduo à comunidade e ao território.
Na matriz africana, a moradia tradicional envolve a coletividade e o diálogo com a natureza, refletindo um modelo de vida sustentável. No ocidente, a habitação incorpora noções de privacidade e funcionalidade, mas carece frequentemente da dimensão comunitária e afetiva. Nas tradições asiáticas, a arquitetura é harmonizada com o fluxo energético e o meio ambiente, buscando equilíbrio e serenidade.
Repensar a habitação requer olhar para práticas que combinam segurança, acessibilidade, integração ecológica e social, reconhecendo o direito fundamental a um lar digno e culturalmente respeitoso.
4. Vestuário: Expressão Cultural e Proteção
O vestuário é o terceiro produto essencial, atuando como proteção física e manifestação simbólica da identidade cultural. Além de cobrir o corpo, ele comunica pertencimento, valores e histórias coletivas.
As tradições africanas valorizam tecidos e adornos que expressam ancestralidade e espiritualidade; a cultura ocidental desenvolveu a moda como indústria e expressão individual; enquanto nas sociedades asiáticas o vestuário está impregnado de simbolismos ligados à ordem social e à espiritualidade.
A produção e uso do vestuário, portanto, devem respeitar a diversidade cultural, os processos sustentáveis e o significado ético do ato de vestir-se.
5. Saúde: Equilíbrio Vital em Múltiplas Dimensões
A saúde, nesta abordagem, é compreendida como um campo dinâmico de equilíbrio vital — uma sinergia entre corpo, mente, espírito, relações e ambiente. Diferente da visão biomédica hegemônica, a saúde aqui não é ausência de doença, mas sim vitalidade encarnada no cotidiano e nos vínculos.
Tradições africanas, ocidentais e asiáticas se entrelaçam para inspirar esse entendimento holístico. A medicina africana, com seu foco comunitário e espiritualidade integrada; a ayurveda indiana, que enfatiza a harmonia dos doshas e a conexão com a natureza; e a medicina tradicional chinesa, que promove o fluxo energético e o equilíbrio dos yin e yang — todas essas práticas convergem para um cuidado integral que transcende o corpo físico.
Essa integração entre saberes ancestrais e contemporâneos fortalece práticas comunitárias, espiritualidade e conexão ecológica. Cuidar da saúde, portanto, é também cuidar da vida em sua totalidade: da dignidade ao pertencimento, do corpo à colectividade, respeitando as particularidades culturais de cada matriz civilizatória.
6. Conhecimento: O Produto Invisível que Liberta
Na perspectiva GAESEMA, o conhecimento é um produto imaterial, mas de altíssimo valor libertador. Saber é poder — e todo saber é situado, relacional e, portanto, político. Não basta acumular informação: é necessário transformar conhecimento em sabedoria, justiça e autonomia.
Saberes orais, espirituais, populares e decoloniais precisam ser valorizados junto à ciência moderna. A figura do griô africano, o mestre espiritual asiático e o educador popular ocidental exemplificam modos plurais de produção e partilha do saber, que se enraízam na vida, na comunidade e na ética.
Autores como Ngũgĩ wa Thiong’o (África), que defende a descolonização do conhecimento e a valorização das línguas e saberes ancestrais; Confúcio (Ásia), cuja filosofia enfatiza a ética, a harmonia social e a importância da educação moral; e Paulo Freire (Ocidente), que inspira a pedagogia crítica e o protagonismo dos oprimidos, contribuem para fundamentar essa visão integrada.
Assim, o conhecimento deixa de ser um produto abstracto e se torna um processo vivo, situado culturalmente e comprometido com a emancipação e a transformação social, entrelaçando tradições africanas, asiáticas e ocidentais numa rede de sabedoria que sustenta a vida.
7. Espiritualidade: O Eixo Invisível de Toda Produção
A espiritualidade é reconhecida como força estruturante da existência. Longe de ser um adorno religioso, ela organiza o tempo, confere sentido ao fazer e orienta a produção com consciência. Seja nos rituais africanos, na meditação oriental ou nas práticas contemplativas ocidentais, a espiritualidade aparece como um solo invisível que nutre a vida humana.
Mais do que crença, espiritualidade é modo de viver em comunhão com o sagrado, com a natureza e com o outro. É presença, ritmo, ética e cuidado encarnado.
8. Relacionamentos: O Tecido Invisível da Produção Social
Relacionamentos não são apenas afecto — são infra-estrutura da vida social. A ética do Ubuntu (eu sou porque nós somos), o confucionismo relacional e as noções de amor comunitário mostram que a qualidade dos vínculos humanos é base para qualquer sociedade justa.
Em tempos de isolamento, consumo afectivo e fragmentação social, reconstruir os laços é um acto político de regeneração. Produzir é também coabitar o mundo com respeito, reciprocidade e solidariedade.
9. Aplicações Sistêmicas: Rumo a uma Nova Economia da Vida
A partir dos sete (7) produtos essenciais da vida, vislumbra-se uma nova arquitetura económica e civilizatória. Essa economia da vida não se mede pela eficiência material, mas péla capacidade de garantir acesso universal, equitativo e sustentável aos fundamentos da existência.
Essa proposta dialoga com saberes africanos, asiáticos, indígenas e ocidentais críticos. Ela incorpora práticas como a economia regenerativa, o bem viver, a gestão dos bens comuns, a educação sistémica e a espiritualidade ecológica. Cada política pública, cada orçamento, cada projecto deve ser guiado por uma pergunta simples e radical: estamos garantindo os sete (7) produtos essenciais da vida para todos?
10. Conclusão: Produzir é Cuidar, Proteger e Amar
Produzir, neste novo paradigma, deixa de ser uma ação fragmentada e utilitária. Passa a ser um gesto sagrado, relacional e comprometido com a continuidade da vida. Os sete (7) produtos essenciais não são mercadorias — são expressões da dignidade humana e das condições ontológicas para que a vida floresça com sentido e plenitude.
Governar esses produtos de forma justa é mais do que gerir uma economia: é sustentar uma cosmovisão. Uma visão em que o verdadeiro desenvolvimento é aquele que protege, honra e regenera a vida em todas as suas dimensões.
Porque produzir, no fim das contas, é amar.
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