A Criação Monetária Justa: Uma Perspectiva Filosófico-Produtiva na Economia GAESEMA

Autor: Gilson Guilherme Miguel Ângelo
Revista: GAESEMA / CAPÍTULO 5 DO LIVRO IVº A ORIGEM DE TODA PRODUÇÃO, 2ª OBRA(DINHEIRO É UM PRODUTO COMPLEXO) GAESEMA Ano: 2025

Resumo

A criação monetária, na lógica económica tradicional, é amplamente atribuída a instituições financeiras e ao Estado. Entretanto, esta abordagem limita o valor do dinheiro a uma convenção institucional e o dissocia da realidade produtiva. A Filosofia GAESEMA propõe um paradigma alternativo: o dinheiro como produto da produção humana, resultante da transformação da natureza por meio do trabalho. Este artigo apresenta uma fundamentação teórica sobre a origem do dinheiro a partir da produção, analisa a função das moedas no ciclo produtivo e propõe um modelo de criação monetária justo e equilibrado, sustentado péla Metodologia Artesanal Reprodutiva (MAR). A criação justa do dinheiro, quando conectada directamente à produção útil e socialmente reconhecida, garante uma economia ética, sustentável e voltada ao bem comum.

Palavras-chave:

Produção, Criação Monetária, Filosofia GAESEMA, Economia Natural, Justiça Económica, MAR, Valor.

1. Introdução

As crises económicas recorrentes, a inflação descontrolada e o distanciamento entre produção e poder de compra revelam falhas estruturais nas teorias económicas vigentes. A Filosofia GAESEMA, nascida em solo africano e focada na realidade produtiva do continente, propõe uma refundação do pensamento económico baseada na origem natural do valor: a produção. Esta abordagem rompe com os paradigmas bancocêntricos e estatalistas, e propõe que o dinheiro só possui legitimidade quando nasce da criação de bens úteis à sociedade. Ao substituir a lógica da especulação péla lógica da produção, GAESEMA propõe uma nova moral monetária centrada na justiça produtiva e comunitária.

2. O Dinheiro como Produto da Produção

Na Filosofia GAESEMA, o dinheiro não é uma construção arbitrária, mas o reflexo da energia humana aplicada à transformação da natureza. Todo produto útil carrega valor, e esse valor é a essência do dinheiro. A dissociação entre produção e moeda, típica dos sistemas financeiros convencionais, gera um dinheiro oco, sem raiz na realidade, sujeito à inflação especulativa. O reconhecimento da produção como fonte do dinheiro recoloca o produtor como sujeito central da economia e propõe uma justiça monetária baseada na equivalência entre trabalho, valor e circulação.

3. A Metodologia Artesanal Reprodutiva (MAR)

Parte Especial

MAR — A Metodologia Artesanal Reprodutiva como Espelho da Realidade Cósmica e da Produção Humana

MAR, base prática da Filosofia GAESEMA, estabelece que a criação de moeda deve estar condicionada ao ciclo natural de produção: produzir → permutar → consumir → reinvestir. Este ciclo não apenas sustenta o valor da moeda, como também impede a criação de dinheiro sem base real. MAR actua como um regulador natural da oferta monetária, vinculando-a directamente ao que foi efectivamente produzido. Isso assegura equilíbrio entre demanda e oferta, prevenindo crises financeiras e fortalecendo o poder produtivo local.

A MAR (Metodologia Artesanal Reprodutiva) não é apenas uma teoria criada por Gilson Guilherme Miguel Ângelo. Ela é, acima de tudo, uma realidade humana, natural e prática que o mundo contemporâneo, especialmente as elites técnicas, políticas e económicas, preferem ignorar ou subestimar. Contudo, MAR existe como uma imitação natural da forma como o cosmos funciona.

A natureza nos ensina que a combinação entre terra (solo), água, ar e semente, quando submetida à lógica do tempo, gera um facto real: a produção. Esse processo não depende da especulação, do financiamento externo ou da ilusão de riqueza. Ele depende da realidade produtiva, do ritmo cósmico e da força humana que trabalha, espera, cuida e colhe. MAR é exactamente isso: um sistema filosófico-prático que replica a lógica natural do universo na estrutura socioeconómica da humanidade.

A Produção como Base Geral da Segmentação Económica

No universo da MAR, a produção é a base de toda segmentação humana, sendo o princípio fundamental que organiza o mercado, as finanças, a política e até a espiritualidade social. A moeda, nesse contexto, é apenas uma representação económica da satisfação produtiva, e não o objectivo final da sociedade. Ela transcende o simples desejo lucrativo, porque na filosofia GAESEMA, o lucro sem produção é um delírio e a economia sem trabalho é uma encenação.

Esta visão choca com o pensamento económico angolano contemporâneo, onde a moeda é venerada e a produção é, muitas vezes, negligenciada ou submetida à dependência externa. No entanto, exemplos de países como o Brasil, a Alemanha e a China mostram que mesmo grandes economias reconhecem a necessidade de sistemas monetários duplos — com moedas comunitárias ou mecanismos locais — para apoiar tanto as micro quanto as macroeconomias. Esses sistemas paralelos permitem um amortecimento das crises, fortalecem a auto-suficiência e protegem a economia real da inflação globalizada e dos choques externos.

A Ilusão do Desenvolvimento Inflacionado

Para Gilson Guilherme Miguel Ângelo, a inflação é apenas um estágio da economia — o estágio onde a produção real é substituída péla imaginação de uma estrutura fictícia, suportada por financiamentos externos, dívidas públicas e especulações. É normal e legítimo que uma nação receba investimentos ou financiamentos. Contudo, é necessário compreender que financiamentos precisam ser produtivos e ter um fim real e conclusivo.

Hoje, o que se observa é o contrário: todas as nações estão endividadas, e isso não é sinal de desenvolvimento, mas de dependência estrutural. Apenas as nações com alto grau de produção interna e organização territorial são capazes de transformar os financiamentos em estruturas sustentáveis. Portanto, não é a dívida que sustenta uma nação, mas sim a capacidade de transformar essa dívida em produção real, infra-estruturas úteis e bem-estar social.

A Economia como Peneira Rota da Realidade Contemporânea

A economia moderna é, assim, uma peneira rota, que já não filtra a realidade dos povos. Ela deixa escapar a essência do desenvolvimento: a produção. Por isso, as nações como Alemanha, China e Brasil, apesar de suas potências, precisaram criar dois sistemas financeiros internos: um para sustentar as imaginações da macroeconomia — bolsas, bancos, títulos e investimentos especulativos — e outro para dar resposta à realidade produtiva local, fortalecendo cooperativas, comunidades, agricultura familiar, indústrias de bairro e moedas sociais.

Para África, um Sistema Duplo é Não Só Possível, Mas Necessário

Em África, esse modelo também pode e deve funcionar. Um sistema serve para responder à imaginação da economia formal, vinculada às instituições internacionais. O outro sistema, de base MAR, responde péla realidade produtiva das regiões, das comunidades e dos territórios vivos, aonde a produção é feita com as mãos, com a terra, com os saberes locais e com a cultura do povo.

Assim, a metodologia MAR aparece como uma alternativa real, natural e necessária, que permite que o angolano e o africano em geral retomem o controle da sua economia com base naquilo que sabem, fazem e produzem — e não com base naquilo que importam, copiam ou recebem de fora.

4. O Papel das Moedas na Lógica GAESEMA

A moeda, segundo GAESEMA, é um instrumento e não um fim. Ela serve para mediar trocas e organizar a circulação de valor com base no esforço produtivo. A emissão monetária deve estar sob controle das comunidades produtivas, e não de elites financeiras ou instituições distantes. Isso descentraliza o poder monetário, fortalece a soberania local e reduz a dependência de sistemas bancários especulativos. Moedas locais baseadas na produção permitem um dinamismo económico justo e regenerativo.

5. O Impacto Económico da Criação Monetária Justa

A criação justa do dinheiro promove uma economia ética, estável e sustentável. Ela reduz a desigualdade ao garantir que o valor monetário circule em função da produção real e não de jogos financeiros. Ela também encoraja o consumo consciente, valoriza o trabalho humano e favorece a reinvestigação comunitária. Essa lógica combate a inflação sistémica e reconstrói a confiança entre produtores e consumidores. Ao fazer do dinheiro um reflexo da realidade produtiva, GAESEMA propõe uma nova economia que une espiritualidade, justiça social e soberania produtiva.

6. O Processo de Criação Monetária na GAESEMA

A criação monetária, segundo GAESEMA, ocorre em cinco etapas, todas relacionadas directamente com a produção e a permuta justa:

Etapa 1: Produção Real como Origem

A base do dinheiro é o valor produzido péla transformação da natureza, mediado pêlo esforço humano. A produção de alimentos, ferramentas, serviços e bens intelectuais constitui a matriz de onde emerge o valor monetário.

Etapa 2: Reconhecimento de Valor pêlo Mercado

Uma vez produzido, o bem entra em circulação. O mercado reconhece seu valor com base na utilidade social e escassez relativa. O valor de troca nasce da aceitação colectiva daquele produto como necessário.

Etapa 3: Geração de Moeda

O dinheiro é então gerado proporcionalmente ao valor produzido. Ele não é impresso arbitrariamente, mas representa uma medida da produção efectiva. Instituições financeiras actuam apenas como gestoras da circulação, e não como criadoras autónomas do dinheiro.

Etapa 4: Circulação e Reprodução

O dinheiro circula como representação de valor e estimula novas produções. A equação produtiva gera o ciclo:

Produção → Troca → Reprodução

Esse ciclo deve ser contínuo para manter o dinheiro ancorado à realidade.

Etapa 5: Controle Natural da Moeda

A quantidade de dinheiro em circulação deve ser ajustada conforme a produção real. Se há mais produção, há mais dinheiro com valor. Se a produção diminui, o valor do dinheiro deve se contrair, evitando inflação.

Respeitando estas etapas, até as instituições estatais ministeriais conseguem se autofinanciar e passam a ser verdadeiras e gigantescas contribuintes para os sistemas tributários dos próprios sistema reais que são imaginados nos PIB de cada Estado. esta ideia transcende ao sector privado e alinha os dois movimentos que sustentam a vida em sociedade a Produção e a Política.

7. Conclusão

O paradigma da Filosofia GAESEMA representa uma revolução no pensamento económico contemporâneo. Ao afirmar que o dinheiro nasce da produção e não das instituições, rompe-se com a lógica da especulação e se inaugura uma economia de base ética, real e justa. A MAR consolida essa proposta ao garantir uma criação monetária enraizada na utilidade social dos bens produzidos. Esta filosofia não apenas reconecta o dinheiro à vida, mas propõe uma economia territorial, humana e regenerativa. Em um mundo atravessado por desigualdades e crises monetárias, GAESEMA apresenta-se como uma proposta transformadora e necessária para repensar o valor, a riqueza e o futuro da economia.

Referências

  • ÂNGELO, Gilson Guilherme Miguel. Dinheiro é um Produto Complexo: A Verdade Espiritual, Filosófica e Política sobre o Dinheiro. Coleção Filosofia GAESEMA, Livro II. Luanda: Edições GAESEMA, 2025.
  • POLANYI, Karl. A Grande Transformação: As Origens da Nossa Época. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
  • MARX, Karl. O Capital – Crítica da Economia Política. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.
  • GRAEBER, David. Debt: The First 5,000 Years. New York: Melville House, 2011.
  • DOWBOR, Ladislau. A Era do Capital Improdutivo. São Paulo: Autonomia Literária, 2017.
  • AMIN, Samir. O Capitalismo no Século XXI. São Paulo: Boitempo, 2016.
  • LATOUCHE, Serge. A Aposta Decrescente: Como Sair do Imaginário Econômico Dominante. Lisboa: Instituto Piaget, 2009.

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