Autor: Gilson Guilherme Miguel Ângelo
Revista: GAESEMA / CAPÍTULO 6 DO LIVRO IVº A ORIGEM DE TODA PRODUÇÃO, 2ª OBRA(DINHEIRO É UM PRODUTO COMPLEXO) GAESEMA Ano: 2025

Resumo
O artigo (O Dinheiro e a Política: Caminhos Históricos para a Reforma Monetária Africana) de autoria do pensador angolano Gilson Guilherme Miguel Ângelo, propõe uma leitura filosófico-produtiva da relação entre o dinheiro e a política no contexto africano, à luz da Filosofia GAESEMA. A obra analisa, em 12 pontos bem desenvolvidos, como o dinheiro surge historicamente vinculado ao poder político, à moralidade governamental e à justiça produtiva.
A partir de exemplos históricos e contemporâneos — como o Império Romano, a crise da República de Weimar na Alemanha, os estímulos monetários dos EUA em 2008, a política controlada da China, o colapso do Zimbabwe, e os dilemas atuais de Angola e Venezuela — o autor defende que a instabilidade económica nos países africanos é resultado da desconexão entre emissão monetária e produção real. O artigo enfatiza que imprimir dinheiro sem suporte produtivo resulta em inflação, empobrecimento social e dependência externa.
O ponto mais inovador do texto está na defesa profunda da legalização e valorização do mercado informal africano. Gilson Ângelo afirma que esse sector é a verdadeira expressão da economia dos povos africanos, nascido das suas práticas culturais, redes de solidariedade e resistência económica. Ignorá-lo é negar a própria realidade produtiva do continente. A filosofia GAESEMA propõe que a moeda africana deve nascer da produção local e da justiça social, e não de pressões externas ou modelos estrangeiros. O dinheiro deve refletir o valor do povo e não a fragilidade do Estado.
Com uma abordagem crítica, propositiva e pedagógica, o artigo oferece caminhos concretos para que os Estados africanos acelerem sua reforma económica sem sacrificar os seus povos, inspirando-se em lições históricas e ajustando as suas políticas à alma produtiva do seu território.
Introdução
O dinheiro, na sua essência mais profunda, não é apenas um instrumento de troca, mas um espelho do sistema político e moral que governa uma sociedade. Ele revela as escolhas éticas, económicas e espirituais de um povo. Na Filosofia GAESEMA, o dinheiro deve ser compreendido como um produto humano, nascido da produção justa, e profundamente influenciado pelas decisões políticas. Ao observar a história das grandes nações e os desafios vividos por países africanos, percebemos que o dinheiro e a política estão intrinsecamente ligados — e, quando essa relação é mal conduzida, resulta em crises que castigam os mais vulneráveis. Este artigo é uma proposta de compreensão e reforma, a partir de uma leitura crítica, africana e produtiva da história monetária global.
1. A Origem Política do Dinheiro
O dinheiro não surge do acaso. Ele é sempre fruto de uma estrutura política que o cria, regula e distribui. Na antiguidade, reis e imperadores detinham o monopólio da cunhagem, como símbolo máximo de soberania. Na Roma Antiga, por exemplo, os imperadores cunhavam moedas para financiar guerras e obras públicas, mas também para afirmar sua autoridade. Esse poder, contudo, não era isento de consequências: ao imprimir mais moedas sem lastro produtivo, criava-se inflação e perda do valor real do dinheiro. Isso penalizava os trabalhadores e os pobres, desestabilizando a sociedade.
No mundo moderno, os bancos centrais assumiram esse papel, mas ainda sob forte influência de interesses políticos. O exemplo do Federal Reserve durante a crise de 2008 nos EUA mostra como decisões políticas podem canalizar trilhões de dólares para salvar bancos, sem reflectir uma preocupação com os trabalhadores ou pequenos empreendedores. Ou seja, a política molda o dinheiro — e quando essa moldura é injusta, o dinheiro perde seu valor ético.
2. O Dinheiro e o Estado
Na Filosofia GAESEMA, o Estado não deve apenas gerir a moeda como um mecanismo técnico, mas como um compromisso ético com a justiça social. A criação do dinheiro deve ser proporcional à realidade produtiva do país e ao bem-estar da sua população. Quando o Estado imprime moeda sem alinhar com a capacidade real de produção, ele está a criar uma mentira económica que resultará em pobreza, apressara a inflação e dependência geral.
A China oferece um exemplo de gestão estatal controlada: o governo central determina o fluxo da moeda conforme metas de crescimento, investimentos e controle inflacionário. Ainda que isso não elimine desigualdades, mostra que é possível utilizar a política monetária como ferramenta de construção e não de exploração. Em contrapartida, em muitos Estados africanos, o dinheiro é manipulado conforme ciclos eleitorais, pressões externas ou conveniências momentâneas — sem compromisso com o futuro do povo. Isso não é neutralidade política, é traição produtiva.
3. A Política na Inflamação e Deflação Monetária: Entre a Produção Real e a Vontade Política
Na visão clássica, inflação e deflação são apresentadas como desequilíbrios técnicos entre oferta e demanda. No entanto, à luz da Filosofia GAESEMA e da reflexão crítica do pensador angolano Gilson Guilherme Miguel Ângelo, esses fenômenos devem ser compreendidos como produtos das decisões humanas, especialmente das decisões políticas. Ou seja, inflação e deflação não são meros efeitos espontâneos do mercado, mas sim expressões de relações sociais e escolhas intencionais dentro de um sistema político e produtivo.
Segundo o autor, há um duplo campo de interpretação para a inflação: uma inflação natural, fruto dos processos reais entre produção e consumo, e uma inflação artificial, resultante da política institucional que manipula esses fluxos para atender objectivos estratégicos de poder ou metas de governo. A primeira é inevitável, pois decorre do tempo, da escassez, da sazonalidade e dos limites da capacidade produtiva. Já a segunda é fabricada: emerge quando o Estado altera o curso natural da economia em nome da (maioria), ou seja, por força da lógica democrática ou populista, que nem sempre representa a justiça produtiva.
Gilson Ângelo observa que, na política moderna, o dinheiro e seus efeitos não seguem apenas os ciclos naturais da produção. Ao contrário, toda estrutura de convivência política — desde as leis, os impostos, os salários, os programas sociais, até os subsídios agrícolas e os preços de alimentos — é uma forma de produção organizada artificialmente, com fins normativos. Nesse cenário, até a inflação pode ser vista como uma produção política, construída conscientemente para redistribuir, corrigir ou adiar crises. Portanto, inflação não é sempre erro: é, às vezes, um instrumento político deliberado.
Contudo, o autor alerta para os riscos de se manipular a inflação sem considerar os ritmos da produção real. Se o Estado impõe metas de crescimento, distribuição ou consumo descoladas da capacidade concreta de produzir valor (como alimentos, moradia, energia ou serviços), ele cria uma economia inflacionária que existe apenas no papel — um teatro de cifras que esconde o empobrecimento silencioso das famílias. É nesse ponto que a moral política se separa da moral produtiva.
Um exemplo paradigmático continua sendo o da República de Weimar (Alemanha, anos 1920), onde o governo imprimiu grandes quantidades de moeda para pagar reparações da Primeira Guerra Mundial. A consequência foi uma hiperinflação histórica: em 1923, um simples pão podia custar bilhões de marcos. A moeda perdeu completamente sua função como medida de valor e meio de troca, e a sociedade mergulhou no caos. Essa experiência demonstrou que a manipulação da moeda, sob pretexto de necessidades políticas, pode levar a desastres sociais, polarização ideológica e rupturas institucionais.
Para a Filosofia GAESEMA, a verdadeira política monetária deve considerar a produção como centro ético e estratégico das decisões económicas. Isso significa que a emissão de moeda, o controle da inflação e a definição das taxas de juros devem estar alinhadas com a capacidade real de gerar riqueza, satisfazer necessidades e manter o equilíbrio entre o que se produz e o que se consome. Fora disso, entra-se no território da ilusão política e da instabilidade social.
Dessa forma, inflação e deflação não são apenas números ou gráficos de economistas. São decisões morais, com impacto direto na dignidade humana. E toda decisão moral exige responsabilidade, consciência histórica e compromisso com a produção justa. Os governos que ignoram isso transformam o dinheiro em uma arma de opressão, e não em um instrumento de prosperidade.
4. O Dinheiro como Instrumento Político: Entre o Controle Monetário e o Poder de Decisão
Na Filosofia GAESEMA, o dinheiro não é apenas um meio de troca ou reserva de valor. Ele é, essencialmente, um instrumento de execução política, moldado historicamente para organizar e controlar os fluxos produtivos de uma nação. Para o pensador angolano Gilson Guilherme Miguel Ângelo, a verdadeira origem da economia moderna — tal como a conhecemos — não está no comércio nem na produção, mas no controlo financeiro e monetário exercido pelos governos. A economia, enquanto ciência dos intercâmbios e das satisfações das necessidades, nasceu a partir da vontade política de organizar a escassez e priorizar interesses coletivos sob uma autoridade central. Neste entendimento, o dinheiro é uma (arma, pistola económica) da política, tal como uma arma de fogo é uma ferramenta de controle social utilizada péla polícia ou pélas forças armadas. Ambos os instrumentos — a arma e a moeda — servem para reforçar a autoridade do Estado e garantir obediência ou submissão. Um pélo medo físico; o outro, pélo domínio da sobrevivência económica. Por isso, a emissão de moeda e a regulação financeira são, na sua essência, formas sofisticadas de poder.
Gilson Ângelo argumenta que, após a decisão inicial da criação da moeda (um acto político), o dinheiro torna-se um dispositivo de execução das metas políticas dos governos. A quantidade, o destino e a circulação do dinheiro são deliberadamente ajustados conforme os interesses dos regimes no poder. Ou seja, não é a produção que determina o valor do dinheiro, mas a política que determina quanto vale a produção — ou até quem pode produzi-la. Quando a política ignora essa responsabilidade ética e técnica, o dinheiro se dissocia da realidade e passa a produzir distorções sociais, inflação, escassez e conflito. Este fenómeno é visível no caso da Venezuela. Ali, o governo usou a impressão de moeda como estratégia política para manter programas sociais, comprar apoios e sustentar discursos populistas. No entanto, sem um lastro produtivo que sustentasse o aumento da massa monetária, o valor do dinheiro evaporou. Em 2018, a inflação ultrapassou 1.000.000%. A moeda perdeu sua função de medida, de troca e de reserva. As famílias perderam o acesso aos alimentos, à saúde e ao transporte. O dinheiro deixou de representar a produção real e passou a ser um símbolo de propaganda e de desespero colectivo. Esse colapso demonstra que o dinheiro, quando manipulado politicamente sem respeito à lógica da produção e da justiça social, deixa de servir ao povo e transforma-se em um mecanismo de repressão velada. Ele premia os aliados, pune os opositores e alimenta uma elite enquanto os trabalhadores ficam excluídos do pacto produtivo.
Um exemplo vivo ocorreu ontem, durante a cimeira da NATO em Haia, quando o presidente Donald Trump pressionou os países aliados a elevarem os gastos militares ao 5% do PIB até 2035 en.wikipedia.org+15reuters.com+15democracynow.org+15. Esse aumento massivo na alocação de recursos exigiria que cada nação verificasse se sua produção real — industrial, tecnológica, logística — estaria preparada para suportar essa demanda. Mas o apoio político partidário, movido por interesses estratégicos dos EUA, atropelou essa ponderação. Exemplo: a Espanha, liderada por Pedro Sánchez, recuou e manteve sua meta em torno dos habituais 2%, argumentando que os 5% propostos eram inviáveis e potencialmente danosos à sua capacidade económica interna .
Isso demonstra que até entre as nações mais unidas e poderosas, o dinheiro continua sendo um instrumento de manipulação política, auto-imposto como meta, mesmo quando não há estrutura produtiva que sustente a intenção oficial. É a política a decidir antes da economia — e não o contrário.
A Filosofia GAESEMA aponta que esse desequilíbrio reforça a dependência das nações mais fracas. Quanto maior a nação, mais recursos são exigidos, mas também maior a necessidade de coerência entre dinheiro, política e produção. Sem isso, o incremento de recursos torna-se show político, mas resulta em fragilidade interna.
Portanto, o dinheiro não constrói o Estado — quem constrói o Estado é a produção real, com base na cultura, no trabalho e na soberania nacional. E o Estado só é forte se respeitar essa base. O restante — sejam cifras de PIB, quotas defensivas ou metas inflacionárias — é propaganda política, não produção honesta. E, enquanto ignorarmos essa verdade filosófica, permaneceremos sob o domínio dessa (arma, pistola económica) que atira contra o futuro dos nossos povos.
A lição que fica é clara: nenhuma quantidade de dinheiro pode suprir a ausência de produção real nem resolver as crises de legitimidade política. Quanto maior a nação, maior será sua dependência de um sistema económico equilibrado. E o mundo contemporâneo prova isso. Por isso, Gilson Guilherme Miguel Ângelo propõe uma reforma profunda da política monetária africana: que o dinheiro volte a ser subordinado à produção, e não à propaganda do poder. A moeda deve nascer da produtividade, do trabalho e da ética social — não da astúcia política nem do desejo de controle.
5. O Impacto do Dinheiro na Moralidade Política
A forma como uma sociedade trata o dinheiro revela sua alma política e seu estágio de desenvolvimento moral. Quando o dinheiro é acumulado por poucos, enquanto a maioria vive na escassez, isso não é apenas um problema económico, mas um diagnóstico ético e estrutural. A desigualdade extrema resulta de escolhas políticas: leis fiscais, regimes cambiais, políticas de subsídio e formas de emissão monetária que favorecem elites e punem trabalhadores. Estas decisões moldam a estrutura de justiça de uma nação e determinam o grau de equidade e solidariedade existente entre os seus cidadãos.
Na Filosofia GAESEMA, o dinheiro deve ser reflexo da integridade coletiva. Deve nascer do trabalho, circular com equidade e retornar ao bem-estar comum. Quando o dinheiro é separado da moral, torna-se símbolo de exploração e dominação. A financeirização da política, por meio de lobbies, corrupção institucionalizada e financiamento privado de campanhas, transforma o dinheiro em um meio de poder — e não de justiça. O resultado inevitável é a perda da confiança social e o enfraquecimento do tecido moral da nação.
Contudo, o pensador angolano Gilson Guilherme Miguel Ângelo defende que, apesar dos vícios políticos, a política também abre margens institucionais que permitem ao povo produzir de forma independente e viver com dignidade dentro daquilo que é possível — colocando alimento na mesa, educando seus filhos e exercendo autonomia cultural. É nesse espaço que os mercados informais se tornam centrais. Eles são, para os países africanos, o verdadeiro reflexo da identidade produtiva de seus povos. Ignorar esses mercados informais é o mesmo que ignorar a própria alma de um povo.
Na prática, se um governo decide eliminar a informalidade sem oferecer alternativas realistas e respeitosas com a cultura do povo, ele estará a cortar as veias circulantes que sustentam sua própria existência. Para o pensador, é justamente no nível popular que reside um sentido moral verdadeiro, que se dirige por uma cultura não escrita, mas viva. É nesse contexto que a Constituição angolana, no seu Artigo 38, garante o direito à livre iniciativa económica — um princípio que deveria ser protegido e expandido, não restringido pela tecnocracia.
O pensador argumenta que muitos economistas e estudiosos, ao serem formados em centros acadêmicos estrangeiros, acabam invertendo a lógica da realidade: ao invés de reconhecerem que a economia é filha da produção, reduzem a produção à uma simples atividade económica, desvalorizando sua função cultural e moral. Isso provoca um distanciamento perigoso entre a teoria económica oficial e a realidade concreta vivida pelos povos africanos.
Por isso, Gilson Ângelo propõe uma reforma constitucional profunda: a criação de um artigo constitucional específico dedicado à produção como fundamento da vida e da soberania de uma nação. Esse artigo deve ser estudado em duas vertentes: como direito fundamental do cidadão e como dever social necessário. Em Angola, por exemplo, este artigo deveria constar em dois momentos fundamentais da Constituição:
- No TÍTULO II – DIREITOS E DEVERES FUNDAMENTAIS, CAPÍTULO II – DIREITOS, LIBERDADES E GARANTIAS FUNDAMENTAIS, SECÇÃO I, estabelecendo a produção como um direito fundamental do cidadão;
- E no CAPÍTULO III – DIREITOS E DEVERES ECONÓMICOS, SOCIAIS E CULTURAIS, integrando-a como obrigação coletiva para a manutenção do bem comum.
A partir disso, deve-se fundar universidades voltadas à ciência da produção, capazes de integrar os saberes populares aos sistemas formais de ensino e políticas públicas. Estas universidades teriam também a função de acolher ideias e soluções práticas que a academia tradicional, muitas vezes, não consegue formular, justamente por desconhecer as lógicas culturais de produção que operam no seio do povo.
Essa reforma também daria um novo significado aos demais direitos fundamentais garantidos pela Constituição angolana, como:
- Art. 40: Liberdade de expressão e informação,
- Art. 41: Liberdade de consciência, religião e culto,
- Art. 42: Propriedade intelectual,
- Art. 43: Liberdade de criação cultural e científica.
Todos esses direitos, segundo o pensador, encontram sua plena realização no campo da produção, pois é ali onde a cultura, a fé, a expressão criativa e a liberdade intelectual ganham forma prática e material.
Enfim, o povo deve compreender que ele é contribuinte legal e moral de qualquer sistema monetário. Se o povo produz, não sofre. Mas se não produz, mesmo com todos os bancos e governos do mundo a seu favor, não terá como escapar da dependência, da exclusão e da pobreza. É por isso que nenhuma teoria económica substitui a produção real. E onde essa consciência não for despertada, a arrogância académica continuará destruindo a alma produtiva das nações africanas.
6. A História como Escola Monetária para África
As grandes economias do mundo — como os Estados Unidos, a Alemanha e a China — não nasceram potências. Elas precisaram viver profundas crises sociais e económicas para hoje se posicionarem entre as maiores fabricadoras de bens e serviços do mundo. A lição central dessas nações é clara: o dinheiro não é um criador de riqueza, mas um instrumento que respeita padrões produtivos. Ele apenas suporta níveis sociais de produção. Se o povo produz, o dinheiro se submete às vontades sociais e à realidade. Mas se o povo não produz, o dinheiro se declara, por si só, como fonte de poder — transformando-se em um instrumento de domínio.
O pensador angolano Gilson Guilherme Miguel Ângelo enfatiza que o dinheiro não se define péla sua quantidade, mas péla relação directa que mantém com os ciclos reais de produção e consumo. Isso quer dizer que um país que imprime moeda sem que haja uma cultura de produção enraizada estará a gerar um vazio monetário — onde o dinheiro circula sem representar valor real, promovendo inflação, desemprego, dependência externa e até crises humanitárias.
A história mostra que os EUA precisaram enfrentar a Grande Depressão e a crise financeira de 2008 para reformar seu sistema financeiro e reestruturar sua economia com base na confiança produtiva. A Alemanha, após a Primeira Guerra Mundial, viveu a hiperinflação da República de Weimar, onde uma moeda desvalorizada levou o país ao colapso económico e à instabilidade política que facilitou a ascensão do nazismo. Ambos os casos provam que as potências precisaram entender que nenhuma política monetária pode substituir uma base produtiva sólida.
A China é talvez o exemplo mais emblemático e actual. Após décadas de pobreza extrema e isolamento político, adoptou um modelo de planejamento centralizado voltado para o investimento em infra-estrutura, educação técnica, produção agrícola e industrial. Hoje, a China é a maior produtora de bens e serviços do planeta e se encontra em pé de igualdade (ou mesmo superioridade) frente aos Estados Unidos em diversos sectores tecnológicos e comerciais. Ela presta serviços para a maioria dos governos africanos, exporta produtos para o mundo inteiro — inclusive para as nações ocidentais — e trava disputas comerciais com as maiores potências do globo. Essa trajectória demonstra que o dinheiro só é eficaz quando está alinhado com uma política de produção real, sustentada por uma cultura de trabalho e uma estratégia nacional. A África precisa compreender que não está atrasada — está em processo. Mas esse processo precisa ser acelerado com consciência histórica, planejamento realista e reforma produtiva urgente. O continente deve abandonar a visão mágica do dinheiro como solução imediata e reconhecê-lo como reflexo da sua capacidade interna de gerar valor, dignidade e soberania.
Nesse sentido, a história deixa de ser apenas um arquivo do passado e se torna uma escola monetária viva — onde os países africanos podem aprender, adaptar e reformar suas políticas sem castigar seus povos péla ingenuidade de outros tempos. A experiência global mostra que toda crise é também um ponto de virada. A questão é: para onde desejamos virar?
A resposta, segundo a Filosofia GAESEMA, está em religar o dinheiro à alma produtiva do povo.
7. A Produção como Fundamento do Valor Monetário
Nenhuma moeda tem valor por si só. Ela apenas representa o valor do que foi produzido, trocado ou reservado. Assim, imprimir dinheiro sem produção é como emitir certificados de uma colheita que nunca foi feita. Na prática, é enganar o povo e desorganizar a economia. A Filosofia GAESEMA propõe que toda política monetária parta da produção. Isso exige escutar os pequenos produtores, formalizar o mercado real e proteger as cadeias produtivas locais.
A produção antecede a economia, o dinheiro, a educação formal, os sistemas de governo e as estruturas laborais instituídas. Ela é uma manifestação primária da existência humana, surgindo logo após o primeiro acto vital: respirar. Produzir é, portanto, uma das formas mais autênticas de o ser humano afirmar sua presença no mundo, estabelecer relações com o ambiente e transformar a realidade à sua volta.
Nesta perspectiva, a Filosofia GAESEMA propõe uma ruptura com os modelos tradicionais que reduzem o ser humano à condição de consumidor, passivo diante dos sistemas de produção em massa e da lógica de mercado. Pélo contrário, o homem é visto como um produtor por natureza — um ser espiritual com capacidade de gerar bens, ideias, alimentos, beleza, valores culturais, riquezas comerciais e até mesmo expressões eternas.
Produzir, neste contexto, não se limita a um acto físico ou mecânico, mas envolve o exercício pleno da criatividade, da consciência e da intenção transformadora. A produção é um reflexo da alma humana em movimento, e sua origem está no espírito, na mente e no verbo.
É com esse olhar que esta obra apresenta a produção como uma linguagem estruturada, que pode ser compreendida, ensinada e reproduzida. Assim como se aprende o alfabeto para comunicar-se, também se pode aprender os códigos da produção para criar, transformar e libertar. No livro, do autor Gilson Guilherme Miguel Ângelo — A, E, I, O, U DA PRODUÇÃO — eleva 5 elementos necessários à condição de símbolos universais de um processo produtivo integral, representando os cinco passos fundamentais da criação humana.
Este modelo é ao mesmo tempo espiritual, filosófico e pedagógico. Ele permite uma nova alfabetização: não apenas do pensamento, mas da acção criadora. Pois quem aprende a pensar com autonomia, aprende a produzir com liberdade. E quem sabe produzir com liberdade, jamais se tornará escravo de sistemas, ideologias ou mercados.
Portanto, esta introdução é um convite a repensar radicalmente a forma como nos relacionamos com o trabalho, com os bens, com o conhecimento e com o próprio sentido da existência humana. Trata-se de uma proposta para reeducar a sociedade a partir da produção — não como acúmulo, mas como expressão da plenitude do ser.
8. O Perigo da Dependência de Matérias-Primas
Muitos países africanos dependem quase exclusivamente da exportação de matérias-primas, como petróleo, diamantes ou madeira. Isso gera um paradoxo: o país é rico em recursos, mas pobre em valor agregado. O dinheiro gerado por essas exportações vai para reservas, pagamento de dívidas ou elites governamentais, sem se transformar em valor produtivo interno.
Quando o preço do petróleo cai, por exemplo, a moeda nacional desvaloriza, os salários estagnam e os serviços públicos colapsam. A produção local, agrícola e artesanal, é ignorada. Isso não é uma crise técnica — é uma crise moral. A solução está em diversificar a economia com base no que o povo sabe fazer. Valorizar o trabalho local é salvar a moeda.
Para o pensador angolano Gilson Guilherme Miguel Ângelo, este ponto representa uma das maiores tragédias silenciosas da economia africana: a dependência não percebida que inevitavelmente gera exploração estrutural. A sua crítica filosófica e política parte do princípio de que todos os países exploradores de recursos naturais extraem valor não da matéria-prima em si, mas da sua capacidade de transformar, refinar e reintegrar esse recurso em processos produtivos internos, elevando-o a um patamar de valor agregado que os países exportadores, como Angola, não conseguem alcançar por falta de soberania produtiva.
Essa dependência estrutural gera um ciclo vicioso: o país que detém os recursos naturais exporta-os em estado bruto, a preços mínimos e impostos por lógicas de mercado internacional dominadas por interesses externos. Esses mesmos recursos retornam sob a forma de bens refinados — como é o caso do petróleo, que sai de Angola a um preço baixo e retorna como combustível, plásticos, lubrificantes e derivados a preços exponencialmente superiores — configurando um modelo de empobrecimento produtivo e financeiro.
Segundo Gilson Ângelo, isso demonstra que não é o recurso em si que define o valor de uma economia, mas sim a produção intelectual, científica, tecnológica e cultural que se aplica sobre esse recurso. Os países com bancos centrais fortes e moedas valorizadas, como os Estados Unidos ou a China, não o fazem porque possuem mais recursos naturais, mas porque desenvolveram uma estrutura de produção que dá suporte ao valor de sua moeda. É a produção transformadora que gera valor — não a simples extracção.
Neste contexto, a economia dos países exploradores de recursos é movimentada de forma estratégica: eles mantêm um nível de produção constante e controlado, não apenas para atender à demanda interna, mas para garantir um valor estável à sua moeda, pois ela é respaldada por sua produção real. Ao contrário, países como Angola, cuja economia se baseia na exportação de matérias-primas, estão à mercê dos preços do mercado internacional, ficando vulneráveis às flutuações cambiais e à instabilidade financeira.
Quando o preço do petróleo cai, por exemplo, a economia angolana entra em crise: a moeda nacional desvaloriza, os salários perdem poder de compra, os serviços públicos colapsam, e o povo sofre. Isso não é apenas uma crise técnica ou económica — é, sobretudo, uma crise moral e filosófica. Porque a verdadeira soberania não está em possuir os recursos, mas em saber transformá-los. O país que não produz com base no que tem, acaba por perder até o que possui.
O pensador angolano defende, portanto, que a única forma de romper com esse ciclo de empobrecimento é investir na diversificação da economia com base no saber popular, no talento artesanal, na agricultura familiar, nas indústrias locais e nas tecnologias apropriadas à realidade do povo. Valorizar o trabalho local, estimular a produção autónoma, fortalecer na ideologia artesanal, e criar mecanismos de protecção às cadeias produtivas nacionais, são passos essenciais para reconstruir o valor da moeda a partir da identidade produtiva do país.
Assim, Gilson Ângelo propõe uma nova filosofia de independência económica: uma que não se baseia na busca desesperada por investimento externo ou na submissão a modelos macroeconómicos estrangeiros, mas no reconhecimento de que o povo já é rico — não pelos recursos que possui, mas pelo potencial de produção que carrega. Este é o novo paradigma moral que deve orientar as reformas constitucionais, educativas e produtivas da África contemporânea.
9. O Papel dos Bancos e do Sistema Financeiro
Os bancos devem ser aliados da produção e não agiotas do sistema. Contudo, no contexto africano, especialmente em países como Angola, observamos que os bancos operam numa lógica excludente, voltada quase exclusivamente às grandes empresas ou a indivíduos que já se encontram inseridos nos sistemas estatais e corporativos. O pequeno produtor, o artesão, o agricultor familiar e o empreendedor informal permanecem à margem, ignorados por políticas bancárias desenhadas sem consideração pela realidade social, cultural e produtiva local.
O pensador angolano Gilson Guilherme Miguel Ângelo defende que os bancos são, por essência, instituições que respondem aos interesses económicos de um Banco Central, o qual, por sua vez, está hierarquicamente subordinado a um poder político com interesses executivos definidos por partidos no governo. Em outras palavras, a política comanda a economia, e esta impõe as condições de funcionamento dos bancos.
Se a cultura moral e produtiva de um povo estiver fragilizada por má governação ou ingenuidade administrativa, o sistema financeiro torna-se um reflexo dessas falhas: burocrático, injusto e excludente. Por exemplo, dois homens que vivem na mesma região — um funcionário do Estado e outro um artesão que trabalha com saberes tradicionais — não têm acesso igual aos recursos financeiros. O primeiro pode aceder a crédito bancário por estar inserido no sistema estatal e possuir documentação legal exigida, como título de propriedade, contrato formal ou registo fiscal. O segundo, por mais criativo e produtivo que seja, não consegue sequer abrir uma conta bancária.
Este modelo até poderia funcionar em nações altamente desenvolvidas, onde o Estado tem capacidade para registrar e acompanhar todos os seus cidadãos. Porém, em países com densidade populacional elevada e baixa infraestrutura administrativa — como a China —, o Estado cria mecanismos alternativos: moedas comunitárias, bancos locais, cooperativas populares e sistemas digitais adaptados às necessidades locais. O objectivo é garantir que nenhum cidadão fique fora da engrenagem económica por falta de reconhecimento estatal.
No contexto angolano e africano, por falta de vontade política real, muitos cidadãos continuam sem acesso a documentos legais fundamentais — como escritura de propriedades ou registo de actividade produtiva. Isso configura uma ordem indireta dada aos bancos para que neguem crédito à maioria da população. Ou seja, a exclusão financeira não é um erro técnico, mas uma consequência direta da estrutura administrativa e das escolhas políticas.
Gilson Ângelo afirma que, nessas condições, cabe ao povo reformar suas ideologias produtivas. A única forma de não sofrer é começar a produzir. Produzir ideias, objetos, arte, alimento, soluções. Quando o povo produz, os sistemas burocráticos tornam-se secundários. A dependência do Estado e do banco diminui. E é nesse momento que os bancos passam a correr atrás dos produtores, oferecendo crédito e incentivos, pois compreendem que o verdadeiro motor da economia são aqueles que geram valor.
Os bancos não existem para substituir os produtores, mas para os intermediar. A função bancária deveria ser moralmente orientada: servir como ponte entre quem produz e quem consome, facilitando o fluxo da riqueza. A Filosofia GAESEMA defende que os bancos nacionais sejam reorientados com esse propósito. Isso inclui:
- Estabelecer taxas de juros justas e transparentes;
- Criar programas reais de microcrédito com orientação e acompanhamento;
- Financiar cooperativas locais e iniciativas produtivas comunitárias;
- Estimular a formalização produtiva sem exigir a negação da identidade cultural do povo;
- Construir confiança com as comunidades produtivas, reconhecendo seu valor real.
Em resumo, o sistema financeiro deve ser reconstruído como um sistema moral, orientado pela verdade da produção e não pela ilusão do lucro. Só assim, os bancos se tornarão aliados legítimos da soberania, da justiça económica e do desenvolvimento real das nações africanas.
10. O FMI, Austeridade e a Soberania Monetária Africana
As relações com instituições como o FMI e o Banco Mundial são profundamente complexas e carregadas de implicações políticas, económicas e culturais. Frequentemente, os programas de ajustamento estrutural impostos por essas instituições, em nome da estabilidade macroeconómica, exigem reformas fiscais severas, cortes sociais, liberalização financeira e adoção de sistemas tecnológicos padronizados que muitas vezes não correspondem à realidade cultural e administrativa dos países africanos.
Angola viveu isso após 2008. Cortes no investimento social, congelamento de salários, aumento de impostos e fuga de talentos. Tudo para garantir os compromissos com o FMI. Mas qual é o valor de uma moeda que não representa mais o povo? A soberania monetária não é apenas imprimir dinheiro — é decidir por quem e para quê ele é impresso.
O pensador angolano Gilson Guilherme Miguel Ângelo aponta que o verdadeiro problema não está apenas no empréstimo em si, mas nas condições de aplicabilidade exigidas pelos credores. O FMI, por exemplo, impõe frequentemente que os países beneficiários adotem sistemas financeiros e fiscais padronizados — como softwares de gestão similares ao Primavera —, exigindo que cada cidadão esteja plenamente identificado e integrado ao sistema fiscal nacional. Contudo, em muitos países africanos, a maioria da população produtiva ainda não possui sequer um número de identidade ou registro fiscal ativo. Isso torna todo o sistema ineficiente e excludente.
Quando o dinheiro do FMI entra no país, ele é automaticamente canalizado para os setores formalmente registados nos sistemas estatais. Esses setores, por sua vez, nem sempre representam a verdadeira força produtiva do país. Pior ainda: abre-se espaço para que elites políticas se apropriem dos recursos, criando negócios pessoais ou privilegiando empresas próximas, ao passo que o produtor original, aquele que poderia gerar riqueza e inovação com base nas realidades locais, é excluído.
Como exemplo, imagine dois homens vivendo na mesma região. Um trabalha para o Estado ou para uma empresa formalmente registrada, e por isso tem acesso ao sistema bancário e a financiamentos. O outro é um artesão criativo, com profundo conhecimento local, mas que opera fora dos registos estatais. Apenas o primeiro terá acesso a políticas de crédito fomentadas pelos acordos com o FMI. Já o segundo, para ser reconhecido, teria que abandonar sua lógica produtiva autêntica e adaptar-se a um sistema que o ignora.
Esse cenário produz uma inversão trágica: o político, com acesso ao financiamento, torna-se empresário e abre um bar com bebidas importadas, enquanto o verdadeiro produtor é forçado a trabalhar nesse bar em condições precárias. Se esse produtor tivesse acesso direto ao crédito e apoio institucional, poderia fundar uma fábrica de bebidas nacionais, gerar emprego, fortalecer a identidade cultural e contribuir com o desenvolvimento real da nação.
Portanto, Gilson Guilherme Miguel Ângelo defende que qualquer empréstimo internacional deve ser precedido por uma análise cultural e estrutural da sociedade onde será aplicado. O FMI, por mais tecnicamente competente e bem-intencionado que seja, não pode continuar a operar como se todos os países tivessem a mesma realidade administrativa que as nações desenvolvidas. É necessário respeitar a alma produtiva de cada povo.
A soberania monetária, nesse contexto, não significa apenas imprimir dinheiro, mas decidir com autonomia por quem e para quê esse dinheiro é impresso. Quando se desconsidera essa soberania em nome de uma austeridade imposta de fora, o que se compromete não é apenas a economia — é o futuro moral, social e cultural de toda uma nação.
11. O Mercado Informal: A Alma Económica Ignorada
A Urgência de Integrar o Mercado Informal: Reconhecimento Cultural e Legalização Estruturada
Um dos pontos mais negligenciados — e ao mesmo tempo mais poderosos — para a reforma económica e política nos Estados africanos é o reconhecimento e a integração plena do mercado informal ao sistema produtivo nacional. A Filosofia GAESEMA sustenta que o dinheiro é uma expressão directa da produção e da organização social; por isso, ignorar a maior forma de produção espontânea existente em muitos países africanos é ignorar a própria alma económica dos povos.
O mercado informal, frequentemente marginalizado pêlos planos estatais, não é apenas um espaço de sobrevivência: ele é o retracto da criatividade, da resistência e da organização comunitária. Trata-se de um ecossistema complexo e funcional que responde à ausência de políticas públicas eficazes, oferecendo soluções práticas às necessidades diárias da população. Este mercado é construído com base nas tradições culturais, nos laços de confiança e nas dinâmicas locais. Mais do que uma alternativa, ele é a realidade dominante da produção e do comércio em muitos países africanos.
Nas periferias urbanas, nos bairros populares e nas zonas rurais, o comércio informal sustenta milhares de famílias e dinamiza as trocas económicas. As quitandas, os zungueiros, os feirantes, os mecânicos de bairro, os agricultores que vendem nas margens das estradas, os os taxistas individuais, os moto-taxistas, os pequenos alfaiates e outros são agentes produtivos reais, que operam sem subsídios, sem protecção institucional e, frequentemente, sob repressão legal. No entanto, é precisamente essa população que garante a circulação de bens, alimentos e serviços onde o Estado não alcança.
Integrar o mercado informal ao sistema produtivo nacional não é um acto de concessão: é uma medida estratégica de justiça económica e de desenvolvimento realista. Isso exige, porém, que os Estados abandonem a postura colonialista e importada de (modernização excludente), que tenta empurrar modelos ocidentais ou asiáticos sem considerar a estrutura social africana. A formalização deve ser compreensiva e respeitosa, baseada em diálogo comunitário, educação económica e valorização das práticas existentes.
A legalização do mercado informal não deve significar sua burocratização. O erro histórico de muitos governos africanos foi tentar converter o mercado informal em (empresa formal) com exigências e taxas impossíveis de cumprir. Essa abordagem, além de injusta, é economicamente contraproducente. Em vez disso, propõe-se a criação de zonas económicas especiais informais, com regimes fiscais simplificados, acesso a microcrédito, infra-estrutura adaptada e formação técnica. Isso possibilitaria a transição gradual, protegida e consciente dos produtores informais para uma economia integrada, onde suas práticas sejam valorizadas e seus direitos assegurados.
Além disso, o reconhecimento cultural do mercado informal é essencial. Este mercado não surgiu por acaso. Ele é fruto de uma longa história de exclusão, mas também de sabedoria local. Ele reproduz sistemas de confiança, solidariedade e reciprocidade que não se aprendem em universidades ou bancos de desenvolvimento. A cultura produtiva africana está viva nos mercados de rua, nas feiras populares, nas oficinas improvisadas e nos pensamentos de seus escritores e sábios — onde o valor não é só monetário, mas também social e espiritual. Ignorar essa dimensão é como tentar plantar sementes num solo que se recusa a aceitar raízes estrangeiras.
É urgente, portanto, que os Estados africanos incluam o mercado informal nos seus planos de desenvolvimento. Isso implica reconhecimento jurídico, apoio financeiro, formação técnica e infra-estrutura mínima. Mas implica, sobretudo, reconhecer que o desenvolvimento não se faz apenas com planificações tecnocráticas — ele precisa ouvir o povo onde o povo já está a produzir. A moeda nacional, para ter valor real, precisa circular onde a vida acontece: nos becos, nas praças, nas zonas rurais, nos bairros esquecidos. É ali que o dinheiro ganha alma.
Integrar o mercado informal também fortalece a soberania nacional. Muitos países dependem de moedas estrangeiras, de financiamento externo ou de importações porque não reconhecem sua própria base produtiva. Se os milhões de produtores informais forem empoderados, formados e organizados, poderão transformar-se na maior força económica de cada nação. A formalização adaptativa, aliada à espiritualidade produtiva da Filosofia GAESEMA, pode dar origem a um novo modelo de Estado: o Estado que serve, reconhece e se constrói a partir da produção real e da cultura do seu povo.
A integração do mercado informal não é apenas uma proposta económica, é um imperativo de justiça, dignidade e reconhecimento da história. Ao integrar esse sector, os governos africanos estarão a dar um passo histórico: abandonar a visão colonial que via o povo como problema, e assumir a nova visão soberana que vê o povo como solução. O informal não é atraso: é ancestralidade, criatividade e potencial. Cabe aos líderes reformistas construir políticas públicas que reflictam essa verdade profunda.
Por fim, é essencial compreender que a informalidade não é apenas uma condição económica, mas também uma ideologia cultural. Ela representa uma visão de mundo centrada na partilha, no trabalho familiar, na adaptabilidade e na proximidade entre produtor e consumidor. É o verdadeiro mercado africano. Negá-lo é negar a África. Por isso, a proposta GAESEMA é clara: legalizar, apoiar e integrar o mercado informal é reconhecer a identidade económica do continente. É dar alma à moeda e à política, ligando-as directamente à realidade do povo.
Gilson Guilherme Miguel Ângelo conclui que se a Angola e África quiser criar um modelo económico próprio, sustentável e soberano, deverá começar por onde tudo já funciona: os extensos mercados informais. E, assim, deixará de importar fórmulas alheias para exportar sabedoria enraizada na sua própria cultura e prática produtiva.
12. Conclusão: O Dinheiro como Reflexo da Política Justa
No contexto da Filosofia GAESEMA, o dinheiro é inseparável da política e da moralidade por via da produção. Ele não deve ser visto apenas como um instrumento financeiro, mas como uma ferramenta que, quando utilizada com justiça, pode servir ao desenvolvimento humano e à prosperidade colectiva. A política tem o poder de moldar a natureza do dinheiro, e a forma como essa política é conduzida determinará se o dinheiro será uma força de opressão ou uma ferramenta de liberdade e prosperidade para todos.
Quando o dinheiro é manipulado de forma política sem compromisso com o bem-estar social, ele deixa de ser um produto justo e passa a refletir a desigualdade, a injustiça e a exploração. A filosofia GAESEMA propõe que o dinheiro seja tratado como um reflexo da produção justa e da moralidade coletiva. Ao invés de um simples instrumento de troca ou de poder, o dinheiro deve ser um reflexo de um sistema econômico que respeita os direitos humanos, a equidade e o desenvolvimento sustentável. A política monetária deve ser pensada de forma responsável, com o objetivo de garantir uma distribuição equitativa da riqueza e promover o bem-estar coletivo. Somente assim o dinheiro, como produto humano, poderá cumprir sua função natural: ser um reflexo de uma economia saudável, justa e equilibrada.
Referências
- ÂNGELO, Gilson Guilherme Miguel. Dinheiro é um Produto Complexo: A Verdade Espiritual, Filosófica e Política sobre o Dinheiro. Colecção Filosofia GAESEMA, Livro II. Luanda: Edições GAESEMA, 2025.
- POLANYI, Karl. A Grande Transformação: As Origens da Nossa Época. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
- MARX, Karl. O Capital – Crítica da Economia Política. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.
- GRAEBER, David. Debt: The First 5,000 Years. New York: Melville House, 2011.
- DOWBOR, Ladislau. A Era do Capital Improdutivo. São Paulo: Autonomia Literária, 2017.
- AMIN, Samir. O Capitalismo no Século XXI. São Paulo: Boitempo, 2016.
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