Do livro: Legalidade Espiritual: Gestão de Autoridade e a Responsabilidade no Mundo Espiritual
Autor: Gilson Guilherme Miguel Ângelo

Resumo
Este artigo apresenta uma análise ampliada do conceito de legalidade espiritual, integrando a definição corrente no pensamento espiritual contemporâneo com a formulação filosófico-teológica do pensador angolano Gilson Guilherme Miguel Ângelo e a abordagem dialéctica de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. No campo contemporâneo, a legalidade espiritual é compreendida como a autoridade concedida a uma pessoa ou entidade para agir no plano espiritual em nome de outra. Gilson concorda com essa formulação, mas propõe duas bases adicionais: a legalidade como instrumento ou portal que conecta o plano espiritual ao físico e a possibilidade de exercício directo dessa autoridade por qualquer indivíduo consciente e bem instruído. A filosofia hegeliana fornece sustentação metodológica a essa visão, explicando a interacção entre corpo, mente e alma, bem como as dinâmicas de reconhecimento mútuo que definem igualdade, superioridade ou subordinação nas relações humanas e espirituais. A integração dessas três perspectivas propõe uma leitura aplicável às reformas conceituais da Gaesema, reforçando a centralidade da responsabilidade individual e da consciência espiritual.
Palavras-chave: legalidade espiritual; Gilson Guilherme Miguel Ângelo; Georg Wilhelm Friedrich Hegel; autoridade espiritual; filosofia angolana; dialéctica; nova era.
Introdução
A legalidade espiritual é um conceito que transcende a mera linguagem religiosa, alcançando dimensões filosóficas, sociais e ontológicas. No pensamento espiritual contemporâneo, ela é definida como a autoridade concedida a uma pessoa ou entidade para agir no plano espiritual em nome de outra. Essa formulação, de carácter jurídico-espiritual, implica um acto de concessão que estabelece prerrogativas específicas no campo não visível.
O pensador angolano Gilson Guilherme Miguel Ângelo mantém essa definição como base, mas propõe uma reformulação metodológica em duas dimensões: primeiro, compreendendo a legalidade como um portal ontológico que liga o plano espiritual ao plano físico; segundo, afirmando que qualquer indivíduo pode exercer sua própria legalidade espiritual de forma directa, desde que adquira conhecimento, desenvolva bons princípios e compreenda as leis que regem essa ligação.
A filosofia de Georg Wilhelm Friedrich Hegel — especialmente sua noção de desenvolvimento imanente e reconhecimento mútuo — oferece uma chave metodológica para compreender essas duas bases de Gilson. Hegel explica que toda realidade se desenvolve internamente, num processo dialéctico que une e transforma opostos. Além disso, descreve que as relações entre indivíduos passam por um processo de aceitação recíproca que define se a interacção será de igualdade, superioridade ou subordinação. Essa estrutura social e filosófica se mostra surpreendentemente adequada para pensar a legalidade espiritual não apenas como autoridade concedida, mas como uma relação de reconhecimento entre planos de existência.
Assim, este artigo busca integrar as três abordagens — contemporânea, angolana e hegeliana — a fim de construir uma compreensão robusta da legalidade espiritual, alinhada às reformas conceituais defendidas péla Gaesema.
1. A definição contemporânea de legalidade espiritual
No pensamento espiritual contemporâneo, a legalidade espiritual é compreendida como autoridade concedida. Essa concessão pode ocorrer de forma consciente, por meio de pactos, votos, declarações ou rituais, ou de forma inconsciente, através de hábitos, escolhas e alianças tácitas. A relação entre outorgante e outorgado define o escopo de actuação no campo espiritual.
Essa compreensão ecoa fundamentos bíblicos, como em Romanos 13:1–2, que afirma que toda autoridade provém de Deus, e Hebreus 13:17, que reforça a legitimidade de líderes espirituais.
2. A ampliação conceitual segundo Gilson Guilherme Miguel Ângelo
Gilson Guilherme Miguel Ângelo preserva a definição contemporânea, mas introduz duas bases que ampliam sua profundidade:
- Primeira base – A legalidade espiritual é um elemento ou portal que conecta o plano espiritual ao plano físico, permitindo que influências, informações e energias transitem entre essas duas realidades.
- Segunda base – O exercício dessa legalidade pode ser feito directamente por qualquer pessoa, sem intermediários, desde que haja conhecimento adequado e princípios sólidos, ou de forma mediada, através de líderes ou autoridades espirituais.
3. Implicações para o pensamento da nova era
A proposta de Gilson desloca parte da ênfase do controle por intermediários para a responsabilidade individual. Isso se harmoniza com correntes espirituais da nova era, que entendem a evolução espiritual como processo interno e consciente, sem abrir mão do valor das mediações voluntárias.
4. A contribuição de Georg Hegel para a compreensão da legalidade espiritual
O filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel fornece uma sustentação filosófica rara e valiosa para o conceito de legalidade espiritual. Seu princípio de desenvolvimento imanente descreve que as coisas se transformam a partir de um movimento interno, onde opostos coexistem e se superam mutuamente. Aplicado ao campo espiritual, isso significa que a ligação entre o plano físico e o plano espiritual é dinâmica, orgânica e inevitável, pois ambos fazem parte de um mesmo processo de realidade total.
Para Gilson Guilherme Miguel Ângelo, Hegel é um dos pensadores mais aptos a explicar academicamente a interacção entre corpo físico, mente, alma e plano astral. Essa visão se encaixa na sua primeira base — o portal que une dois mundos — ao compreender a pessoa como unidade complexa, simultaneamente física e espiritual.
Além disso, a noção hegeliana de reconhecimento mútuo estabelece que, quando dois indivíduos interagem, ambos devem decidir — consciente ou inconscientemente — se a relação será de igualdade, superioridade ou subordinação. É desse processo que nascem estruturas sociais como a de patrão e servo. Transportado para a legalidade espiritual, isso significa que cada indivíduo decide como se posicionará:
- Como dependente de intermediários espirituais;
- Como igual em relação ao divino;
- Ou como alguém que delega ou submete seu poder espiritual a outro.
Essa leitura confirma que a legalidade espiritual pode ser compreendida também fora da religião, como relação social e ontológica de reconhecimento e autoridade, sustentando a metodologia de reforma conceitual proposta péla Gaesema.
Considerações finais
A integração da definição contemporânea de legalidade espiritual com as bases propostas por Gilson Guilherme Miguel Ângelo e a dialéctica de Georg Hegel fornece uma estrutura conceitual sólida e interdisciplinar. A perspectiva hegeliana não apenas reforça a compreensão da legalidade como ligação entre planos, mas também explica, em termos sociais e filosóficos, os mecanismos de aceitação, reconhecimento e hierarquia que operam nessas relações.
Essa abordagem integrada, além de respeitar o núcleo teológico do conceito, amplia seu alcance metodológico e filosófico, oferecendo à Gaesema e à comunidade académica uma leitura aplicável tanto ao campo espiritual quanto ao social. Nesse sentido, a legalidade espiritual emerge como conceito central para compreender não apenas a autoridade no plano invisível, mas também as formas pélas quais o indivíduo escolhe — ou permite — se posicionar diante do Divino e de seus semelhantes.
Referências
- BÍBLIA Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida, Revista e Corrigida.
- GUILHERME MIGUEL ÂNGELO, Gilson. Estudos e Ensaios sobre Legalidade Espiritual.
- HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do Espírito. Trad. Paulo Meneses. Petrópolis: Vozes, 2017.
- SILVA, J. P. Autoridade e Submissão no Contexto Espiritual. São Paulo: Vida Plena, 2018.
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