Do livro: Dinheiro é um produto Complexo
Autor: Gilson Guilherme Miguel Ângelo

Resumo
Este artigo examina a relação entre dinheiro, espiritualidade e sentido da vida à luz da Filosofia GAESEMA e do pensamento do filósofo angolano Gilson Guilherme Miguel Ângelo. Argumenta-se que o dinheiro, embora desempenhe papel fundamental na mediação das trocas sociais e na estruturação da economia, possui limites claros quanto à sua capacidade de promover a felicidade, a paz interior e a realização existencial. Enquanto a Filosofia GAESEMA entende o dinheiro como expressão da produção humana e reflexo da espiritualidade individual e colectiva, Miguel Ângelo reforça a necessidade de resgatar a essência ontológica do dinheiro, vinculada à produção material e imaterial. Sua crítica destaca que os sistemas contemporâneos têm transformado o dinheiro em instrumento de opressão, dissociando-o do produtor humano e sufocando sua centralidade existencial. O estudo conclui que, sem uma compreensão ética e espiritual do dinheiro, as sociedades correm o risco de subverter a ordem cósmica das relações humanas, privilegiando o valor abstracto da moeda em detrimento do valor humano e produtivo.
Palavras-chave: Dinheiro; Espiritualidade; Filosofia GAESEMA; Gilson Guilherme Miguel Ângelo; Produção; Ética.
Introdução
O dinheiro constitui um dos mais poderosos símbolos da vida social contemporânea. Se por um lado possibilita a aquisição de bens e serviços, por outro levanta questões filosóficas e espirituais sobre seus limites e implicações. A Filosofia GAESEMA propõe que o dinheiro seja compreendido como expressão da produção humana e como reflexo da moralidade individual e colectiva. Entretanto, há aspectos essenciais da vida que transcendem sua lógica: a paz interior, a espiritualidade, o amor e a felicidade.
No mesmo horizonte, o pensador angolano Gilson Guilherme Miguel Ângelo denuncia o esvaziamento do significado original do dinheiro nas sociedades actuais. Para ele, a moeda passou a ter mais valor do que o próprio ser humano que a produz, deslocando o centro da vida social do produtor para o papel monetário. Este artigo articula a Filosofia GAESEMA com as reflexões de Miguel Ângelo, a fim de investigar os limites do dinheiro e a necessidade de sua ressignificação ética e espiritual.
Fundamentação Teórica
A Filosofia GAESEMA defende que o dinheiro não é apenas uma convenção económica, mas uma representação simbólica do trabalho humano e da criatividade individual e colectiva. Seu verdadeiro valor emerge da produção ética e do uso responsável em prol do bem comum. Assim, distingue-se entre valor material (quantificável e negociável) e valor espiritual (intangível, relacionado ao propósito e ao sentido da vida).
Miguel Ângelo, por sua vez, sustenta que a essência do dinheiro deve estar vinculada directamente à produção ou transformação, seja material ou imaterial, física ou espiritual. Em sua crítica, a centralidade da vida humana é sufocada por sistemas políticos e económicos que subordinam o produtor ao valor abstracto da moeda. O resultado é um deslocamento ontológico: o dinheiro adquire primazia sobre a própria vida que o gera.
Esse tensionamento entre essência e uso do dinheiro constitui o ponto de partida para a reflexão filosófica proposta neste artigo.
Análise e Discussão
1. O Dinheiro e o Sentido da Vida
Para a Filosofia GAESEMA, o dinheiro é limitado em sua capacidade de fornecer o essencial da vida. Ele pode mediar trocas, mas não garante paz interior ou felicidade. Miguel Ângelo amplia essa reflexão ao denunciar que a sociedade contemporânea, ao supervalorizar a moeda, sufoca a própria essência do humano, reduzindo o produtor a uma posição inferior ao papel impresso.
2. Produção e Espiritualidade
O pensamento GAESEMA associa espiritualidade à produção ética e criativa, compreendendo o trabalho como um acto de expressão cósmica. Miguel Ângelo converge com essa visão ao afirmar que toda forma de produção — seja intelectual, material ou espiritual — possui valor ontológico. No entanto, critica os governos que estruturam planos económicos desconectados da centralidade do produtor, privilegiando abstracções financeiras.
3. A Ilusão da Felicidade Comprável
A ideia de que o dinheiro pode comprar a felicidade revela-se ilusória. Sociedades ricas enfrentam altos índices de depressão e estresse, demonstrando a insuficiência da moeda como fonte de sentido existencial. Para Miguel Ângelo, a verdadeira felicidade se encontra no acto de produzir com propósito cósmico, e não em atender a vontades egoístas de sistemas políticos ou administrativos que subordinam o humano ao monetário.
4. O Colapso Ético e Cósmico das Nações
Ao substituir a produção autêntica pêlo valor monetário abstracto, as sociedades caminham para a ruptura da ordem cósmica. Gilson Guilherme Miguel Ângelo adverte que esse processo abre caminho para a decadência espiritual e política das nações, pois os valores deixam de corresponder ao funcionamento natural do cosmo. A moeda, quando dissociada de sua essência produtiva, torna-se instrumento de destruição social.
5. A Moeda como Espelho da Moral e Integração Teórica
A moeda nunca foi apenas metal ou papel; é, acima de tudo, um espelho da moral individual e colectiva de um povo. Como defende Gilson Guilherme Miguel Ângelo na Filosofia GAESEMA, a moeda está intrinsecamente ligada à produção: quando surge da justiça produtiva, torna-se instrumento de prosperidade partilhada; quando se divorcia da ética, converte-se em arma de opressão.
Essa reflexão dialoga com o pensamento de Karl Marx, que via o dinheiro como o (equivalente universal) capaz de corromper relações humanas, transformando virtudes em mercadorias. Para Marx, o perigo está em quando a moeda deixa de servir à produção e passa a dominar o produtor. De outro modo, Jean Bodin, no século XVI, já associava a riqueza de uma nação à abundância de moeda, mas alertava que, sem disciplina moral e boa gestão, a moeda perderia o seu valor político e social. Ambos convergem, à sua maneira, para a tese central de Gilson Guilherme Miguel Ângelo: sem ética, a moeda é desumanizada.
O humor mordaz de Mark Twain também nos recorda dessa fragilidade. Ele dizia que (o homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o que não sabe ler) e, adaptando ao campo da economia, pode-se dizer: o povo que não entende a sua moeda é facilmente escravizado por ela. Twain, ao criticar a ilusão das fortunas, antecipa o alerta de GAESEMA: sem consciência filosófica e espiritual, a moeda transforma-se em mito e armadilha social.
6. Por que os ricos fundaram bancos?
Historicamente, muitos que acumularam riquezas — mercadores venezianos, banqueiros florentinos como os Médici ou industriais modernos — escolheram fundar bancos não apenas para preservar o seu património, mas sobretudo para controlar a circulação da moeda e, assim, governar povos inteiros. A posse directa da moeda era instável; já o banco oferecia a possibilidade de transformar riqueza privada em poder sistémico.
Esse movimento confirma a intuição de Gilson Guilherme Miguel Ângelo: quando a moeda se afasta da produção e se prende ao circuito fechado do crédito e da especulação, ela deixa de ser produto colectivo para tornar-se ferramenta de poucos. Daí nasce a inflação, a desigualdade e a corrupção estrutural.
7. Integração com os clássicos do pensamento económico
A reflexão filosófico-económica proposta por Gilson Guilherme Miguel Ângelo, no âmbito da Filosofia GAESEMA, inscreve-se num diálogo crítico com os grandes pensadores da economia e da sociologia que marcaram os últimos séculos.
Karl Polanyi (2000), em A Grande Transformação, descreve como a economia de mercado se autonomizou, separando-se da vida social e subordinando o homem às leis impessoais do mercado. Gilson converge com Polanyi ao criticar a submissão da produção africana aos modelos ocidentais de mercado, defendendo que a produção deve nascer do triângulo Produtor–Produção–Produto, recolocando o ser humano no centro do processo económico.
Joseph Schumpeter (1961), ao reflectir sobre capitalismo, socialismo e democracia, destacou o papel da destruição criadora como motor de inovação e progresso. Na óptica de Gilson, essa dinâmica só é positiva quando orientada péla ética da produção e pêlo respeito às realidades locais; caso contrário, a destruição criadora converte-se em dependência estrutural e exclusão social.
Max Weber (2004), em sua análise sobre A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, evidenciou a ligação entre cultura, religião e desenvolvimento económico. Gilson retoma esse debate ao propor uma espiritualidade da produção, na qual a fé, a ética e a moral pública devem conduzir o uso da riqueza e impedir a corrupção, reconstruindo uma ética produtiva que dialoga com a realidade africana.
Adam Smith (1996), o pai da economia clássica, via na divisão do trabalho e na (mão invisível) mecanismos de progresso e equilíbrio. Gilson Guilherme Miguel Ângelo, sem rejeitar a importância da produtividade, questiona a ilusão de que o mercado por si só resolve desigualdades, propondo uma nova economia natural que valoriza a produção real, a soberania territorial e o fortalecimento dos mercados informais como reservas de resistência.
Eric Hobsbawm (1982), em A Era do Capital, destacou como a consolidação do capitalismo no século XIX transformou radicalmente sociedades e impérios. Gilson Guilherme Miguel Ângelo, ao retomar esse fio histórico, mostra como o mesmo processo repercutiu no colonialismo e na dependência africana, exigindo hoje um projecto de emancipação produtiva que resgate a dignidade dos povos.
Fernand Braudel (1996), ao explorar as múltiplas camadas da economia-mundo, revelou a diferença entre a economia de mercado local, a economia material de sobrevivência e o capitalismo de longa duração. A Filosofia GAESEMA dialoga com essa visão ao distinguir entre produção natural, mercado informal e fluxos globais, defendendo que a soberania só é possível quando o Produtor controla o Produto em harmonia com a Produção.
Por fim, John Maynard Keynes (1985), ao propor a intervenção do Estado para corrigir falhas do mercado, abriu espaço para um capitalismo mais regulado. Gilson Guilherme Miguel Ângelo vai além: sugere que a verdadeira intervenção não deve apenas regular, mas também recriar o modelo de produção em função da realidade africana, substituindo dependências externas por um sistema produtivo enraizado nas comunidades.
Conclusão
Se Marx alertou para a alienação do trabalho, Bodin para a disciplina da moeda, Twain para a ilusão da fortuna, Polanyi para a autonomização do mercado, Schumpeter para os riscos da destruição criadora, Weber para a relação entre religião e economia, Smith para a ilusão da mão invisível, Hobsbawm para a desigualdade histórica, Braudel para as múltiplas escalas do capitalismo e Keynes para a regulação estatal, Gilson Guilherme Miguel Ângelo reúne e actualiza todos em um chamado: devolver à moeda o seu carácter de produto individual e colectivo, reflexo moral da sociedade, e resgatar a produção como fundamento da verdadeira soberania humana e cósmica, reflexo moral da sociedade e não propriedade de elites bancárias. O dinheiro é, ao mesmo tempo, ferramenta necessária e limite existencial. A Filosofia GAESEMA e o pensamento de Gilson Guilherme Miguel Ângelo convergem ao afirmar que sua função só pode ser legitimada quando vinculada à produção ética e ao bem comum.
O desafio contemporâneo é resgatar a centralidade do humano no processo económico, reconhecendo o produtor como fonte original de valor, acima da moeda que o representa. A verdadeira riqueza não reside no acúmulo monetário, mas na produção que se alinha à ordem cósmica, à ética e à espiritualidade. Quando o dinheiro substitui o ser humano como referência de valor, instaura-se um desequilíbrio que ameaça a estabilidade das sociedades e de suas instituições.
Portanto, urge reflectir sobre o papel do dinheiro não apenas como categoria económica, mas como questão filosófica e espiritual. Somente assim será possível construir sociedades mais justas, sustentáveis e em harmonia com a ordem cósmica.
📚 Referências
- Ângelo, Gilson Guilherme Miguel. Filosofia GAESEMA: A Prosperidade ou a Corrupção. (Manuscrito, 2025).
- Marx, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. São Paulo: Boitempo, 2017.
- Marx, Karl; Engels, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.
- Bodin, Jean. Les Six Livres de la République (Os Seis Livros da República). Paris, 1576.
- Twain, Mark. Following the Equator. Hartford: American Publishing Company, 1897.
- Polanyi, Karl. A Grande Transformação: As Origens da Nossa Época. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
- Schumpeter, Joseph A. Capitalismo, Socialismo e Democracia. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961.
- Weber, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
- Smith, Adam. A Riqueza das Nações. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
- Hobsbawm, Eric. A Era do Capital (1848-1875). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
- Braudel, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo: Séculos XV-XVIII. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
- Keynes, John Maynard. Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. São Paulo: Nova Cultural, 1985.
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